A dinâmica de Jesus

11 09 2010
A dinâmica de Jesus (Mateus 9:35-38)
Faltava ao povo consolo e confiança, fé, amor e esperança. Entretanto, isso a maioria não via. O imitador de Cristo, contudo, precisa ter esse feeling. Não se trata de sentir dó ou pena das pessoas ao seu redor, mas sim compaixão, o que é bem diferente.

Geralmente as reflexões que ouvimos fundamentadas neste texto estão relacionadas com missões. O pedido de Jesus para que mais pessoas possam botar a mão na massa e sair anunciando as boas novas da salvação em Cristo. Pretendo, com essa meditação, ressaltar esta necessidade também, porém gostaria de me aprofundar um pouco mais no primeiro versículo. Nele vemos, por exemplo, quatro verbos (que em algumas traduções eles estão no gerúndio) que nitidamente mostram as ações de Jesus, ou seja, a sua dinâmica, o seu movimento.

Olhando para o texto sob essa perspectiva, gostaria de considerar as ações que fazem parte da dinâmica do Mestre.

1. O movimento (v.35)
“Jesus ia passando por todas as cidades e povoados, ensinando nas sinagogas, pregando as boas novas do Reino e curando todas as enfermidades e doenças.”

a) caminhava pela região
“Jesus ia passando por todas as cidades e povoados…”

Ele procurava as pessoas lá onde estavam em casa. Em todas as cidades e aldeias há pessoas em casa. Jesus não espera que as pessoas venham a ele (como era o caso de João Batista), contudo vai até elas e as procura, por mais estranhos e escondidos que possam ser em seus hábitos . Ele realiza “visitas domiciliares”, como diríamos hoje. Samuel Keller afirmou certa vez: “A chave para as almas das pessoas está pendurada em sua casa. Por isso é necessário ir até elas, procurá-las em sua vida cotidiana em suas aflições, em suas doenças, em sua solidão.”

Quando adentramos a casa de alguém, estamos explorando, ainda que de forma pequena, a intimidade do indivíduo. Estamos passando a conhecer o seu espaço. Muitas vezes o local onde ela faz as suas refeições, a cama onde ela se deita, o banheiro onde ela faz a sua higiene etc. Era isso que Jesus fazia; ele adentrava a casa das pessoas e posteriormente, com seus ensinamentos , penetrava seus corações. Uma estratégia razoavelmente simples.

b) ensinava
“…ensinando nas sinagogas…”

Ensinar refere-se à instrução dada ao povo (exploração da Palavra de Deus), e também a uma controvérsia aos ensinamentos proclamados pelos fariseus e escribas. O objetivo é que o povo seja ensinado a partir da autoridade, e não dos “estatutos humanos”. A Palavra poderosa do Bom Pastor é quem iria ressoar nos ouvidos das pessoas. Aliás, de que outra maneira este alcançaria seu rebanho, senão fazendo ressoar a sua voz mansa e serena?

c) evangelizava
“…as boas novas do Reino…”

Ao lado do ensino acontece, como segunda característica o “anúncio”, a proclamação da alegria proveniente do Reino. Quem ouviu esse chamado do arauto, essa proclamação que conduz a uma nova vida, deve saber que está convocado a se tornar cidadão desse Reino, o qual existirá de eternidade a eternidade. Você consegue ouvir a mensagem de boas notícias proferida por Jesus? Se sim, quero incentivá-lo a render-se a ela. Se não, atente para aquilo que o Mestre está falando.

d) curava
“…todas as enfermidades e doenças.”

Doenças e sofrimentos de todos os tipos, empobrecimento econômico e domínio estrangeiro nem sequer eram os males piores. O mais terrível era que o povo estava enfermo da alma. Ensino e proclamação são acompanhados da ação simultânea. Pois o reino está em “vigor”. Quando o Senhor diz a sua palavra, caem as amarras do pecado, os castelos de mâmon, as fortalezas da doença, os laços da morte; a alma é curada, o coração é transformado e o caráter mudado.

Jesus nos proíbe deixar de lado a grande miséria física, social, e econômica das multidões, como se não tivéssemos nada a ver com ela, como se fosse possível ouvir e aceitar o evangelho do Reino de modo desligado dela. Cristo não nos permite considerar essa miséria como algo sancionado por Deus. Pelo contrário, ela faz parte da realidade sem Deus (não que aqueles que entregam suas vidas a Jesus não passam por situações adversas) à qual fomos incumbidos de penetrar como sal e luz (Mateus 5:13,14).

2. O sentimento (v.36)
“Ao ver as multidões, teve compaixão delas, porque estavam aflitas e desamparadas, como ovelhas sem pastor.”

Do versículo 35 ao 36 acontece uma mudança na nar ração de Mateus. Numa comovente figura sobre seus sentimentos, Jesus nos mostra sua sincera compaixão para com o povo. Ele viu o povo, mais que isso, ele o enxergou. Nem todos veem. Outros veem, mas não enxergam. O poeta romano Horácio dizia: “Odeio o povo simples e mantenho-me longe dele.” Os fariseus afirmavam: “…essa ralé (se referindo ao povo) que nada entende da lei é maldita.” (João 7:49). Jesus, no entanto, viu o povo e tinha compaixão dele. Essa compaixão profunda fazia com que o seu coração se retorcesse em seu corpo, tal como acontece na parábola do filho pródigo no evangelho de Lucas 15:20 (conforme afirma Fritz Rienecker no livro Evangelho de Mateus).

Faltava ao povo consolo e confiança, fé, amor e esperança. Entretanto, isso a maioria não via. O imitador de Cristo, contudo, precisa ter esse feeling. Não se trata de sentir dó ou pena das pessoas ao seu redor, mas sim compaixão, o que é bem diferente. Ao sentir dó ou pena, nos colocamos acima do indivíduo e olhamos para ele de cima para baixo, isto é, com desprezo. Todavia, ao sentir compaixão tomamos o seu lugar. Percebemos que o que acontece com ele poderia também ocorrer conosco.

3. A percepção (v.37)
“Então disse aos seus discípulos: ‘A colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos.’”

É de uma certa esperança que fala o versículo 37. O tempo de angústia é na verdade é na verdade o período anterior à colheita. Justamente por ser tão grande a miséria, o campo está maduro para a safra. O olhar do Salvador constata: “A colheita é grande…” Cristo o diz para o seu povo e para todos os povos. Afirma-o naquele tempo e hoje. É tempo de colheita porque a promessa de Deus se cumpriu e o Messias veio.

“A própria safra é figura recorrente para o juízo vindouro. Inversamente, porém quando a Palavra de Deus é poderosamente anunciada, já agora são feitas decisões do juízo final. Na posição diante de Jesus, de fato já agora se decidem vida e morte, salvação e condenação”, comenta Fritz.

O pensamento de Jesus exterioriza-se numa emoção forte e profunda, num contraste impactante. Ao erguer os olhos para o Deus o Pai, profere a sentença: A colheita é grande e está madura. Ao olhar em profundidade para a humanidade, surge o lamento sobre o rebanho exausto e prostrado e a falta de operários para a safra. Daí, então, é que vem:

4. O clamor (v.38)
‘Peçam, pois, ao Senhor da colheita que envie trabalhadores para a sua colheita’”.

A tensão e a profunda emoção do coração é solucionada pela oração; a oração séria e persistente: “Roguem ao Senhor da colheita que lance para fora operários na sua colheita”, como diz o texto no original.

No tempo de safra o proprietário procura, além dos seus auxiliares permanentes, ainda trabalhadores especiais, para jogá-los na sua colheita, assim como um general lança suas forcas de reserva na batalha decisiva. Há grande necessidade de discípulos de Jesus, impelidos pelo espírito de Deus, plenos de uma fé firme, animados por um amor sagrado, dotados do olhar de Jesus, a saber, o olhar da compaixão e da esperança, que queiram ajudar na construção do reino de Deus. Precisam saber-se vocacionados pelo próprio Deus. Somente ele pode dar essas pessoas. Ele as dá quando se ora por elas. São frutos de muitas orações. É maravilhoso, e ao mesmo tempo assustador, o quanto Deus coloca em nossas mãos as responsabilidades! Até o emprego de seus colaboradores – “Roguem , pois, ao Senhor da colheita que envie trabalhadores…” – a intercessão autêntica realiza obras grandes no reino de Deus. Abre corações, bocas e mãos para a gratidão e o serviço. Impulsiona-nos para a missão e o serviço em geral. Ela, ainda, nos dá a palavra certa e a ação correta (conforme Munchmeyer).

Clame ao Senhor, ele jamais fará ouvidos moucos para o seu clamor.

Deus abençoe a todos.

Pastor Renato (1ª Igreja Evangélica Irmãos Menonitas do Jabaquara).

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One response

7 10 2010
Elias dos Santos Euzébio

A palavra de Deus muito bem dosada, extremamente autêntica e sublime! Peço a Deus que nos ajude a praticar a compaixão e sermos imitadores de cristo. Que Deus abençoe as igrejas e seus lideres.

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